Roda de conversa no MPT debate saúde mental e prevenção ao suicídio

Diferenciar claramente o trabalho da ocupação é uma estratégia primordial para garantir a saúde mental. O conceito foi defendido pelo médico psiquiatra Tiago Ramacciotti, que ministrou a palestra “Prevenção ao suicídio: como evitar efeitos negativos?”, ocorrida na manhã desta quinta-feira (25/09) no plenário do Ministério Público do Trabalho (MPT) na Bahia.

O evento, voltado para o público interno e aberto a pessoas interessadas no tema, também contou com a contribuição da procuradora do trabalho Rosângela Lacerda. A iniciativa da palestra, que integra a programação do Setembro Amarelo, é da Comissão Socioambiental do MPT na Bahia, que tem como objetivo a promoção de um ambiente de trabalho sadio e livre de riscos.

Ramacciotti destacou que o excesso de trabalho é um dos principais fatores de risco para o suicídio. Segundo o médico, os índices de burnout, conceito cunhado pela psicologia do trabalho, estão em uma crescente não só em referência ao trabalho formal, mas também em relação a outros tipos de atividade laboral, como por exemplo o trabalho parental, que tomba principalmente sobre mães de recém-nascidos.

Rosângela Lacerda adicionou que novos modelos de vínculos trabalhistas, como a pejotização, também degradam a experiência laboral. “A pejotização fragiliza as ligações entre empregado e empregador e se configura como um fator de aumento no número de casos de suicídio”, afirmou a procuradora, que também tem formação em psicologia.

Para o psiquiatra, a procura por propósito e a ocupação do tempo em busca de objetivos individuais é primordial para o bem-estar. O médico destacou que o trabalho não deveria ser um meio de preencher lacunas. “O trabalho, a princípio, organiza a vida, é um elemento estrutural da rotina. Por isso o momento da aposentadoria é um de forte ruptura, por exemplo”, apontou o psiquiatra, ao destacar um maior número de suicídios entre populações idosas.

Ramacciotti afirmou que uma das principais causas do adoecimento mental e da depressão é a presença de uma contínua desesperança. Para ele, o ambiente de trabalho, quando mesclado aos objetivos pessoais de maneira indiscriminada, pode ser responsável por estimular a desesperança. O especialista alertou que o teletrabalho, ao tornar nebulosa a diferença entre ambientes laborais e de descanso, pode potencializar a inclinação a distúrbios emocionais.

O suicídio é a quarta maior causa de morte entre jovens, atingindo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) 700 mil casos anualmente em todo o mundo. No Brasil, segundo o psiquiatra, há uma tendência de aumento nos índices em todas as regiões, especialmente no Sul e no Centro-Oeste. Ele também informou que a parcela da população mais atingida é formada por homens de meia idade.

Condições multifatoriais e transversais são o principal objeto das ações de promoção da saúde mental, conforme explicou o especialista. Ele lembra que, mesmo com a identificação de fatores de risco, não é fácil apontar para um causa isolada quando ocorre uma fatalidade. Ramacciotti destacou que a concepção de suicídio não pode concentrar uma visão eurocêntrica, na qual a causa para o ato decorre de uma depressão severa. Citou os camicases japoneses como exemplo de autoextermínio motivado pelas mais diversas causas. Também realizou uma rápida fundamentação filosófica do tema, mencionando o franco-argelino Albert Camus e a possibilidade de viver em paz com o absurdo da existência humana.

Entre os fatores de risco que aumentam a vulnerabilidade ao suicídio, não é irrelevante o papel da genética. Segundo Ramacciotti, um dos mais relevantes fatores de risco é a existência de um parente de primeiro grau que realizou um ato ou tentativa de autoextermínio. Também a dependência química, especialmente quando pareada com transtornos psíquicos pré-existentes, como bipolaridade ou esquizofrenia, foi apontada como um fator de risco bastante relevante.

Rosângela Lacerda destacou também os chamados sobreviventes do suicídio, maneira como são denominados os parentes e familiares que enfrentam o luto após o desfecho negativo. Em média, cada ato suicida afeta sete pessoas com consequências em sua saúde mental. Segundo o psiquiatra, este é um dos tipos mais complexos de luto, já que há uma gritante ambivalência – o motivo da morte da pessoa amada é ela própria.

Como forma de prevenção, o médico destacou que o debate e maior comunicação sobre o tema é o melhor caminho, especialmente entre os mais jovens, com os quais o tema deve ser debatido sem estigmatizações. Ramacciotti salientou que a comunicação malfeita pode se tornar um fator de risco, e é comprovado que períodos nos quais o tema circula nas mídias de maneira irresponsável acarretam aumento nos índices de suicídio.

Formado em medicina pela Ufba, com residência em psiquiatria pelo Programa de Residência Médica do Hupes, Tiago Ramacciotti atua como preceptor de psiquiatria da residência de Saúde da Família da FESF, preceptor de prática em saúde mental da Unifacs, psiquiatra do Amb-Trans do Cedap e do Caps Nise da Silveira. Além da prática médica, é escritor e finalista do Prêmio Kindle Vozes Negras pelo livro Via Pública.

Tiago Ramacciotti ministrou a palestra na sede do MPT, no Corredor da Vitória, em Salvador
Tiago Ramacciotti ministrou a palestra na sede do MPT, no Corredor da Vitória, em Salvador

 

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