Precarização avança sobre 2 milhões de trabalhadores por aplicativos no Brasil
O mercado de trabalho brasileiro registrou cerca de 2 milhões de pessoas atuando por meio de aplicativos no decorrer de 2025, contingente que corresponde a 1,9% do total de ocupados no país.
O dado integra o módulo temático da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), viabilizada a partir de um convênio de cooperação técnica e científica firmado entre o Ministério Público do Trabalho (MPT), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento traça um panorama detalhado da força laboral inserida nas plataformas digitais e evidencia a precarização do trabalho nessa modalidade, com condições desfavoráveis de renda, jornadas excessivas e desproteção jurídica.
Ao se considerar exclusivamente aqueles que têm nas ferramentas digitais a sua ocupação principal, o volume chega a 1,8 milhão de trabalhadores, registrando uma expansão de 9,1% em apenas um ano e um salto de 36,8% na comparação com o ano de 2022. O segmento de entregadores por aplicativo apresentou o crescimento mais acelerado entre as ocupações pesquisadas, com elevação de 18,6% entre 2024 e 2025. O setor de transporte, armazenagem e correio concentra a maior fatia dessa mão de obra: 75% dos profissionais da área operam por meio de plataformas digitais, o que significa que três em cada quatro trabalhadores dessas atividades dependem de aplicativos para gerar renda.
O perfil predominante é composto pela atuação informal e ampla maioria masculina, representando 84,4% do grupo cuja atividade principal decorre de plataformas. Entre os motoristas e entregadores, a motivação preponderante apontada para a adesão aos aplicativos foi a falta de alternativas no mercado de trabalho convencional, seguida pela busca de flexibilidade de horários.
A pesquisa aponta distorções expressivas nas condições laborais quando confrontadas com o universo dos trabalhadores não vinculados a plataformas no setor privado. Os profissionais de aplicativos cumprem, em média, 5,4 horas a mais de jornada semanal para auferir renda equivalente no final do mês. Essa disparidade se reflete no rendimento médio por hora trabalhada, que ficou em R$ 16,20 para os trabalhadores plataformizados, valor 12% inferior aos R$ 18,40 por hora auferidos pelos trabalhadores formais.
O fosso da vulnerabilidade se torna ainda mais crítico nos indicadores de segurança social. Enquanto a informalidade atinge 42,7% dos trabalhadores não plataformizados, o índice escala para 72,1% entre os que atuam via plataformas digitais, afastando-os de prerrogativas legais como descanso semanal remunerado, férias, 13º salário, dentre outras. Além disso, somente 34% dos profissionais de aplicativos contam com cobertura previdenciária, índice distante dos 63% observados no restante da iniciativa privada. Tal cenário exclui mais de dois terços desse contingente de benefícios essenciais, como auxílio por incapacidade temporária, pensão por morte e aposentadoria.